A força de cada remada move o barco e a vida da ex-instrutora de dança, professora de natação e mãe Vera Lúcia Santos da Silva. Se a idade é um empecilho para muitos, ela baila diante dos seus 69 anos encarando atletas que poderiam ser seus filhos. Aliás, ela teve três meninos: Luciano, Eduardo e Cristiano.

O esporte é uma ferramenta de transformação social e esteve presente em toda a vida de Vera Lúcia. Na infância, jogou vôlei e depois partiu para a dança. Em 1979, deixou Porto Alegre com o marido, José Roberto, e as crianças para se mudarem para Florianópolis. E aqui trabalhou no Colégio Catarinense, em academias de natação e em casa cuidando dos filhos.A vida dela foi de luta, tanto que aos 40 anos passou a se aventurar no boxe e fez lutas amadoras. E para melhorar na nobre arte, teve a indicação do remo, modalidade que pratica há 14 anos. Ela mudou de modalidade ao sentir que precisava evoluir.
“Eu lutava boxe na época e queria ganhar mais força. Me falaram que o remo me daria essa força. Eu lutava no ringue, fazia sparring, e ninguém queria lutar comigo. O professor tinha dificuldade de achar alguém pra lutar comigo”, conta.

No colorido apartamento em que mora em Capoeiras, pintado e recheado de obras feitas por ela mesmo, o dia da atleta começa às 4h. Ela chega às 5h15 no clube Aldo Luz e inicia a preparação para ir ao mar das baías Norte e Sul. No entanto, há seis anos a perda do filho mais novo, Cristiano, foi um golpe duro de assimilar. Até hoje. Remar de segunda-feira a sábado foi e é a válvula de escape para se manter viva.

“O remo me manteve raciocinando, pode-se dizer assim. É sofrido quando eu lembro. No início eu ia para a água, ia para longe, e chorava muito, porque o mar é silencioso, tu não escuta nada. Eu voltava cansada e aliviada. Foi assim por um bom tempo. O esporte me ajudou muito”, relata.

Força para competir

Perder não é uma opção para Vera Lúcia, uma das poucas remadoras negras do Estado, mas ela se testa no remo contra competidores mais novos. Ela disputa o Estadual na categoria máster, acima de 27 anos, no single skiff (sozinha), mas também no four skiff misto (barco com quatro pessoas) e double skiff (duas pessoas).

“Sou supercompetitiva. Se disser que na semana que vem vou para um campeonato, eu mudo totalmente, viro outra pessoa. Foco naquilo, como pensando na competição e vou com tudo para chegar bem e na frente. Não gosto de perder, mas depois de 48 horas tudo passa. Vem outra competição e começa tudo de novo”, diz ela, que tem a segunda etapa do Campeonato Catarinense de Remo marcada para maio, em Blumenau.

Vera guarda em casa as medalhas, mas sem muito apego pela memória de todas por querer conquistar mais. A dieta é sem carne vermelha, sem açúcar, à base de muitos grãos, e a dedicação aos treinos e a alimentação diferenciada refletem no seu espírito de viver e no rosto: ela não parece ter a idade que tem, é muito menos.

 

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Fonte: ND+ | Foto: Ingrid Quaresma/Divulgação/ND