Indira Mihara Felsky Krieger, de 35 anos, foi morta asfixiada em casa. Cleci Kehl, de 34 anos, foi encontrada morta carbonizada dentro de um carro. Jaqueline da Silva, de 31 anos, foi assassinada com um golpe de faca. Em todos os casos o principal suspeito é o companheiro. 

O número de feminicídios em Santa Catarina cresceu 300% em janeiro de 2022 se comparado ao mesmo período de 2021. Do dia 1º ao dia 31 de janeiro, oito mulheres foram vítimas do crime no Estado. Isso equivale a um assassinato a cada quatro dias.

Em 2021 e em 2020, aconteceram dois feminicídios no primeiro mês do ano. O dado registrado em janeiro de 2022 é o maior desde 2015. Os números foram divulgados pela SSP/SC (Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina).

O Oeste foi a região com o maior número de registros. Foram 3 feminicídios em janeiro deste ano. Em seguida, está a região Sul, com duas vítimas. A Grande Florianópolis, o Norte e o Vale do Itajaí aparecem empatados com um feminicídio cada. A região Serrana é a única sem registros desse crime em janeiro.

“Esses feminicídios que registramos este ano apontam para os casos da morte de uma mulher numa situação de violência doméstica e familiar, que é o caso da mulher morta por um companheiro, pelo filho ou até mesmo pelo neto, que é um dos casos que se registra este ano”, contou a delegada Patrícia Zimmermann, coordenadora das DPCAMIs (Delegacias de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso) de Santa Catarina em entrevista ao SC no Ar, da NDTV.

Para a delegada, o feminicídio “é uma questão que a gente precisa tratar na sociedade como um todo. Não existe amor numa relação que termina com a morte de outra pessoa. A morte de uma mulher numa dessas condições é um crime bárbaro. É um crime de ódio. É um crime em que o autor demonstra uma periculosidade muito grande, que ele mata a pessoa que está ao seu lado”.

“Caminho da prevenção e do combate é interminável”

“Quando me deparo com mortes tão próximas, como a da técnica judiciária da comarca de Itajaí, Indira Mihara Felski Krieger, e da trabalhadora terceirizada da comarca de Dionísio Cerqueira, Cleci Kehl Zeppe, percebo que o caminho da prevenção e do combate a esse tipo de violência é interminável”, afirma a juíza Naiara Brancher,  titular da Vara Criminal de Camboriú.

Naiara integra a Cevid (Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar), órgão do Poder Judiciário de Santa Catarina que realiza um trabalho em rede sustentado por três eixos principais: proteger as mulheres, educar as crianças e estimular a reflexão nos homens.

Segundo a juíza, o primeiro ponto para avançar na prevenção ao feminicídio deve ser o reconhecimento, por parte de todos, de que a sociedade é patriarcal e que o machismo é estrutural.

“Falar no machismo estrutural não é apontar atitudes machistas ou sexistas, mas é perceber que nossa forma de pensar se dá a partir de alguns estereótipos de gênero que devem ser eliminados”, explica.

Brancher diz que é preciso reconhecer que é esta sociedade machista que coloca as mulheres como corpos extremamente vulneráveis e sujeitas a todos os tipos de violência, seja em casa, na rua ou nos ambientes de trabalho.

“Não podemos, sob hipótese nenhuma, naturalizar e normalizar a violência. A cada mulher morta, a cada mulher agredida, todas nós somos feridas, mas não vamos deixar de caminhar, por nós, por elas, pelas mulheres que vieram antes de nós e por todas que ainda virão”, defende.

‘Não faz sentido’, diz irmã de vítima de feminicídio

Ceres Felski, irmã de Indira Mihara Felsky Krieger, de 35 anos, morta no dia 8 de janeiro deste ano, relembra o momento que percebeu que algo poderia estar errado com a irmã.

Não é fácil segurar a emoção ao lembrar daquele sábado, por volta das 19h, ou das mais de 8 horas de agonia que antecederam a revelação mais chocante de sua vida. Ceres foi quem encontrou o corpo de Indira.

“Passo o tempo todo que estou acordada lembrando dela, lembrando de cenas, revivendo aqueles momentos. É um filme que fica passando o tempo inteiro”, conta, emocionada. “Não faz sentido apagar a vida de uma pessoa assim”, afirma. Agora, o que a família quer é Justiça.

O principal suspeito é o namorado da vítima, que se apresentou à polícia dois dias depois do crime. Segundo a Polícia Civil, o assassinato aconteceu na casa de Indira, possivelmente após uma discussão do casal, que poderia ter começado após ela encontrar o companheiro usando cocaína. Eles teriam discutido e Indira foi atacada. Ela morreu asfixiada, segundo laudo da necropsia.

Abalo emocional na família

A morte de Indira causou uma rachadura no peito de todos os familiares, que passam por tratamento para o trauma sofrido. “Está sendo muito difícil”, revela Ceres.

Indira sempre foi admirada pela família e por quem teve a oportunidade de estar ao lado dela. Na escola, era uma aluna dedicada e esforçada. Tirou nota máxima na prova da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Fazia trabalho voluntário com pessoas em situação de rua, acolhia cães abandonados. “Uma pessoa do bem, carinhosa”, relembra a irmã, com afeto.

Canais de denúncia

A delegada Patrícia Zimmermann destaca a importância dos canais de denúncia de violência contra a mulher: “O Estado precisa chegar antes. Existem mecanismos de Estado, sejam grupos reflexivos para homens autores de violência, medidas protetivas de urgência, a avaliação de risco que é feita no atendimento dessa mulher. Mas, nós precisamos que a mulher comunique o Estado, que ela faça a denúncia.”

Além da própria mulher, a denúncia de violência pode ser feita por familiares e amigos.

“Se você é um parente próximo ou algum amigo que tem conhecimento dessa situação de violência, ligue para o 181, mande uma mensagem pro número de Whatsapp que é (48) 9-8844-0011, que a Polícia Civil vai chegar até essa mulher. Quando o Estado intervém nos atos anteriores, a estatística não demonstra esses crimes transformando-se em feminicídio”, conclui a delegada.

Fonte/Foto: ND+

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